Sábado, 19 de Fevereiro de 2011

Insomniac Love #3

Uma das boas recordações que tenho da minha infância eram aquelas soalheiras tardes que passava em casa dos meus avós, especialmente o período pós almoço quando me sentava no colo do meu avô e eles me contava uma das suas aparentemente infindáveis histórias.
Um dia contou-me uma história sobre a disputa que três rios; O Tejo, o Guadiana e o Douro encetaram ao chegar à fronteira portuguesa. Tendo percorrido toda a Hispânia e alcançado finalmente as bravas terras Lusitanas os três irmãos resolveram parar pelo dia, descansar e no dia seguinte retomariam o caminho com o primeiro que acordasse a acordar os restantes.

O Guadiana foi o primeiro a acordar e, talvez por pena de acordar os seus irmãos que tão profundamente dormiam ou por pura manha, partiu sem avisar ninguém.
Tendo o tempo a seu favor pode escolher o percurso mais favorável, deslizou suavemente sobre as estepes alentejanas, contrastando o azul límpido das suas águas com o amarelo das cearas.
O Tejo acordou decorrido algum tempo e vendo já o seu irmão à distância partiu passando pelas lezírias e terras baixas do Ribatejo por entre densos canaviais até finalmente ir de encontro ao profundo céu de Lisboa rumo ao mar que tão apaixonadamente abraçou.

Já o Douro perdido nos seus encantos e devaneios mil acordou já ia longo o dia e tendo-se apercebido do seu atraso, veloz e furioso, irrompeu por entre as altas montanhas do Norte. Cruzou Vales, devorou penhascos, quebrou imponentes paredes de pedra, subindo as vertiginosas alturas dignas de um cenário Olímpico para de seguida mergulhar nas mais profundas entranhas da Terra.
Por tudo furou na sua brava jornada rumo ao oceano tendo sido o primeiro dos três a alcança-lo deixando inconscientemente para trás um trilho que passava por algumas das mais belas paisagens lusitanas: entre ravinas de perder a vista e quedas de água imensas que uniam o céu à terra.

Durante largos anos esta simples história figurou apenas como uma entre as muitas que tinha ouvido até ao dia em que reparei o quanto a revia em ti.
Não és de todo um superficial Guadiana a quem só a beleza superficial e a aparência interessam nem um fidalgo Tejo que em prol do facilitismo e procura o caminho mais rápido e fácil passando de necessário por cima de tudo quanto se oponha ao seu previsível plano.

Não, em ti reside a alma e a chama de um Douro Bravo e Selvagem, que destemido irrompe pelo se aventura pelo caminho que o seu coração lhe dita com uma certeza inigualável, tendo sempre por companheiro os seus encantos que tanta graciosidade e harmonia conferem ás suas agitadas águas.

E assim és tu também, um coração bravo e destemido que não hesita em seguir o que os seus sonhos lhe ditam, que vive cada dia com a certeza de que não pode nem por um momento reescrever o seu passado mas que tem o poder de mudar o seu presente. Que entre cantos e encantos faz as delicias das gentes a quem toca e a quem muda, gentes a quem a vida leva e a quem a vida marca.
Essa é a tua génese, uma singela unicidade que apesar da simples aparência esconde de uma forma tão matreira e bela uma essência sem igual capaz de deliciar qualquer um que esteja disposto a timidamente a conhecer, aceitar e, quem sabe, amar.

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